terça-feira, 8 de julho de 2025

MESTRE BINHO, A QUADRILHA JUNINA E ESCOLA DE SAMBA TRADIÇÃO MIRIENSE

Mestre Binho em fotografia no Concurso de Quadrilhas Juninas de Igarapé-Miri 2025. Foto: Railson Wallace.

Manoel Cristóvão Oliveira da Silva, conhecido popularmente como Mestre Binho, nasceu no município de Igarapé-Miri, no estado do Pará, em 11 de março de 1981. De formação familiar católica, desde a infância demonstrou forte ligação com as tradições juninas, desenvolvendo uma paixão especial pelas quadrilhas, que se tornariam, desde cedo, sua principal expressão cultural e artística.
Participante da Comunidade Cristã Santa Bárbara, localizada no bairro da Cidade Nova, no município de Igarapé-Miri, Manoel Cristóvão “Mestre Binho” iniciou sua trajetória como articulador cultural a partir dessa vivência comunitária. Em 1996, passou a desenvolver atividades juninas ligadas à Comunidade Santa Bárbara, dando origem à Quadrilha Tradição Miriense, inicialmente formada como uma quadrilha mirim.

Comunidade Cristã Santa Bárbara, onde nasceu
a Quadrilha Junina Tradição Miriense. 

Naquele mesmo ano, no bairro da Cidade Nova, mais especificamente na área conhecida como Tucumã, existia uma quadrilha junina adulta chamada Balanço Junino. Encantado com a beleza e a expressividade dessa quadrilha durante os festejos juninos, Mestre Binho decidiu criar um grupo vinculado à Comunidade Santa Bárbara, com o objetivo de se apresentar nas festividades dedicadas a Santo Antônio, São Pedro e São João. Assim surgiu a Quadrilha Mirim Tradição Miriense, que teve início como um projeto voltado à formação cultural de crianças e adolescentes.
O nome Tradição Miriense foi escolhido como homenagem ao município de Igarapé-Miri, um dos mais antigos do estado do Pará, reconhecido por sua riqueza histórica e diversidade de tradições culturais. Com o passar dos anos, a quadrilha consolidou-se como uma importante referência no cenário junino local.

Quadrilha Tradição Miriense em apresentação no Concurso Municipal de
Quadrilhas Juninas 2025. Foto: Railson Wallace.

Já no campo do carnaval, a Escola de Samba Tradição Miriense teve origem no Bloco Carnavalesco Tucumã, fundado por Binho Oliveira em 1994. Após alguns anos à frente do bloco, Binho Oliveira decidiu criar uma escola de samba, motivado pela admiração pelas escolas carnavalescas, que considerava mais ricas em expressão cultural, com o uso de fantasias, alegorias e maior impacto. 

Escola de Samba Tradição Miriense no Carnaval 2024.

Após décadas de atuação, a Escola de Samba Tradição Miriense tornou-se a única do município de Igarapé-Miri, contribuindo de forma significativa para o fortalecimento e o brilho do carnaval miriense.

sexta-feira, 6 de junho de 2025

PAI NILSON DE DANDALUNDA: UMA HISTÓRIA DE LUTAS CONTRA O RACISMO RELIGIOSO

Pai Nilson em fotografia do ano de 2023.

Nilson Nascimento Machado nasceu em 18 de julho de 1979, na cidade de Igarapé-Miri, no estado do Pará. Desde o nascimento, sua vida esteve profundamente entrelaçada com o universo espiritual. Ele vem de uma tradicional família de Aché, carregando consigo uma forte ligação com as religiões de matriz africana.

Sua trajetória espiritual teve início formal no ano de 1993, quando começou sua caminhada como pai de santo, embora seus dons mediúnicos tenham se manifestado desde muito cedo. Ainda criança, Nilson já tinha visões e conversava com entidades espirituais. Aos 8 anos, passou por sua primeira experiência de transe e, aos 12, realizou sua primeira incorporação.

O primeiro terreiro em que teve ligação pertencia ao seu tio, Elias de Mariana. Após o falecimento precoce do tio e a derrubada do terreiro, sua mãe, também envolvida com a espiritualidade e filha de umbanda, decidiu abrir sua própria casa. No entanto, ela também veio a falecer, e a casa novamente foi desfeita. Diante dessas perdas, Nilson liderou a fundação de uma nova casa de Santo, que, com muito esforço e resistência, já soma quase 20 anos de atividades, celebrando anualmente a festa das entidades Cabocla Jussara e Cabocla Jacira.

Pai Nilson no Terreiro Rainha Fina Joia.

Em 2019, durante uma tradicional festividade, a casa foi alvo de intolerância religiosa. Um grupo fundamentalista invadiu o espaço sagrado com ofensas, sal e óleo, tentando interromper a celebração. Apesar da tentativa de agressão, os filhos e filhas de santo reagiram com fé e firmeza. O toque dos tambores se intensificou e os caboclos se manifestaram, levando os agressores a se retirarem do local. Nilson denunciou o caso à delegacia, exigindo justiça. O delegado, reconhecendo o direito constitucional à liberdade religiosa, abriu um processo contra os responsáveis.

Pouco tempo depois, Nilson enfrentou uma das experiências mais dolorosas de sua vida. Enquanto organizava mais uma festividade religiosa, percebeu a presença estranha de um homem que o observava. No final daquele mesmo dia, esse homem invadiu sua casa e disparou três tiros. Nenhum dos disparos atingiu órgãos vitais, um milagre, segundo os médicos que o atenderam em Belém. Após o atentado, Nilson se retirou para a casa de um filho de santo em Abaetetuba, onde passou três meses afastado, enfrentando um período de profunda solidão, perda e depressão.

Durante esse momento de escuridão, Nilson teve uma visão espiritual: uma senhora vestida de branco e azul, com um cachimbo na mão, lhe apareceu e o orientou a fazer uma campanha de terço, rezando pela manhã e à noite, para fortalecer sua fé e vencer o medo. Ele seguiu o conselho e, aos poucos, recuperou sua energia espiritual.

Ao retornar à sua casa de Santo, encontrou o terreiro sujo e em estado de abandono. As imagens estavam cobertas de poeira, o espaço tomado por folhas. Diante da cena, Nilson chorou profundamente, mas decidiu que não iria desistir. Com ajuda de antigos amigos e filhos de santo, limpou o barracão e reergueu o espaço. A entidade Caboclo Ubirajara se manifestou e lhe deu uma ordem clara: permanecer ali e não fugir mais.

Nilson perdoou o autor do atentado. Para ele, a justiça pertence a Deus. Acredita que pagar o mal com o mal não eleva ninguém, e que cada um será cobrado pelas próprias escolhas. Desde o ocorrido, passaram-se cinco anos. A casa de Santo cresceu, se fortaleceu, e hoje é referência na cidade de Igarapé-Miri.

Com firmeza, Nilson sempre defende o respeito entre as religiões. Para ele, não existe fé melhor do que a outra, em todas Deus habita. Ele acredita que toda religião tem como princípio tornar as pessoas melhores, mais amorosas, compassivas e solidárias. O confronto, diz ele, não leva a lugar algum. O que o mundo precisa é de respeito e paz.

Recentemente, recebeu em sua casa pessoas do Testemunho de Jeová e teve com elas uma conversa respeitosa e agradável. Para Nilson, esse é o exemplo de convivência que deve ser cultivado: ouvir, dialogar, sem conflito. Ele encerra sua mensagem pedindo bênçãos ao grande pai Zambapongo e que a orixá Dandalunda derrame suas águas sobre todos e todas. Em tempos de guerras, fome e sofrimento, ele acredita que somente a fé e a união entre os povos podem trazer a paz verdadeira.

A trajetória de Nilson Nascimento Machado é marcada por coragem, espiritualidade e resiliência. Um líder religioso que, mesmo diante das maiores provações, escolheu seguir com fé e espalhar respeito. Um exemplo vivo de que a ancestralidade é força, e que a cultura afro-brasileira resiste por meio de seus filhos e filhas.

História na íntegra



domingo, 17 de março de 2024

João Tavares: enfrentou a Ditadura para exercer a sua fé

João Tavares em fotografia do ano de 2024. Foto: Railson Wallace.

João Tavares Brito da Cruz nasceu no ano de 1951, no rio Maúba, interior do município de Igarapé-Miri, divisa com município de Abaetetuba. Passou sua infância naquela localidade, onde trabalhou como pescador, em atividades como a pesca do camarão e a pesca do mapará, trabalhando também em lavrouras de cana-de-açúcar junto ao seu pai, sendo a produção, abastecia os engenhos da região do rio Panacauera, como o Engenho Mambo e o Engenho Santa Cruz.

Desde criança, quando ainda morava no rio Maúba, João já tinha uma conexão com as entidades da umbanda, as forças sobrenaturais já se manifestavam em sua vida. Isso fez com que a sua família se mudasse para o município de Abaetetuba, pois seus pais não aceitavam o dom de seu filho. O pai e a mãe de João, acreditavam que se a família saísse daquela localidade, acabariam as manifestações na vida de João. 

João Tavares em seu terreiro no Bairro da Matinha.
Foto: Ricardo William.

Ao chegar no município de Abaetetuba, João começou a trabalhar em lavrouras "roça", mas mesmo assim não adiantou, pois as manifestações em sua vida ficaram cada dia maiores, já era evidente o seu chamado para a umbanda, então João Tavares resolveu abraçar de vez a cultura dessa religião de matriz africana. Ainda com 14 anos foi preso pela ditadura, por exercer sua fé, após ser denúnciado, foi condenado a prisão, mas o juiz daquela época deu a ordem para soltá-lo e mandou o delegado emitir uma licença que permitiria João de praticar sua religião livremente. 

Barracão Joana Darc do Sr. João Tavares. Foto: Railson Wallace.

Depois de anos, o vereador Miguel Seco e o senhor José Ferreira que residiam no rio Meruú, junto ao senhor Sabá que morava no rio Jamorim, pediram o retorno de João Tavares para o município de Igarapé-Miri. João passou a morar em uma casa que pertencia ao Senhor Sabá, que ficava localizada no bairro da Matinha. Anos depois, João encontrou sua afilhada, que lhe doou o terreno, onde construiu o barracão "Joana Darc" (em homenagem a santa francesa), lá João Tavares pôde exercer sua fé e praticar a sua religião.

João Tavares venceu a prisão, venceu o preconceito pela sua fé, e hoje, é um dos líderes da comunidade dos bairros da Matinha e do Jatuíra. Seu João é um exemplo de luta e superação.

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Tia Curumim da Vila Menino Deus do Anapu

Tia Curumim em fotografia do ano de 2024. Foto: Marlon Rodrigues.

Maria do Rosário Ferreira, conhecida popularmente como Tia Curumim, nasceu no rio Anapu, interior do município de Igarapé-Miri, no dia 01 de outubro de 1937. É filha de Sebastiana Pena Ferreira e Valdemar Lopes Maia. 
Aos 7 anos, Curumim perdeu seu pai que veio a falecer, sendo ela e sua irmã, criadas pelos seus avos Margarida Machado Maia e Delino Lopes Maia. Tia Curumim mora desde sua infância na Vila Menino Deus, enquanto sua irmã foi morar na casa da madrinha, na capital, Belém. 
Ainda em sua infância, uma família oriunda de Abaetetuba comprou um terreno no local onde hoje fica a Vila Menino Deus e construíram algumas indústrias, passando ela a morar com essa família, pois trabalhava como babá naquela casa. Curumim morou na casa dessa família até completar seus 15 anos, pois eles foram embora da localidade, passando ela a morar com a sua mãe. Hoje Tia Curumim reside há mais de 30 anos em sua atual residência.

Casa onde Tia Curumim reside há mais de 30 anos.
Foto: Railson Wallace.

Segundo Tia Curumim, na Vila Menino Deus, são 7 casas antigas contando com a dela, que ainda estão de pé e ressalta que seus filhos, netos e bisnetos, todos nasceram naquela localidade. 
Pela a falta de escolas de séries mais avançados na localidade, ela estudou somente até a 3° série do ensino fundamental, pois nesse tempo quem quisesse dar prosseguimento aos estudos, teria que se mudar para a cidade de Igarapé-Miri. Como ela não tinha condições financeiras, encerrou seus estudos. Já adulta, todos os filhos de Tia Curumim foram estudar na cidade, estando hoje, todos então formados. 

Tia Curumim em sua juventude. Foto: Marlon Rodrigues.

Hoje, moradora viva mais antiga da Vila Menino Deus do Anapu, Curumim diz que a vila cresceu bastante, pois no seu tempo de juventude, era apenas um caminho com poucas casas na beira do rio. Ela se sente feliz por todos os seus filhos estarem au seu lado, pois não tem interesse em abandonar sua casa, o lugar onde cresceu e foi criada.
                                                     

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domingo, 14 de janeiro de 2024

Antonio Rodrigues e o Iate Flor de Sant'Ana

Antonio Rodrigues em fotografia do ano de 2023. Foto: Railson Wallace.

Antonio Rodrigues Quaresma, conhecido popularmente como "Tio da Raspadinha", nasceu no interior do município de Igarapé-Miri, em 22 de novembro do ano de 1958. Em sua infância, Antonio trabalhou em lavouras com seu pai, aos 21 anos, conheceu sua esposa que engravidou, permanecendo ainda morando na casa de seu pai, até os 22 anos. 
Como a gravidez de sua esposa era alto de risco, Antonio teve que se mudar temporariamente para a casa de seus sogros, na cidade de Igarapé-Miri, pois devido a impossibilidade de um parto normal, ter a criança na cidade era a melhor opção, pois Igarapé-Miri já possuia um hospital/maternidade.
Após um tempo na casa de seus sogros e já com seu primeiro filho, Antonio decidiu ficar na cidade, morando inicialmente em uma casa alugada, logo conseguiu um emprego em uma Fábrica de Palmito. 

Antonio Rodrigues e o Iate Flor de Sant'Ana em fotografia do ano
de 2023. Foto: Railson Wallace.

Posteriormente, Antonio passou a trabalhar em Vila do Conde, no município de Barcarena, mas por não se adaptar ao local, decidiu retornar para Igarapé-Miri, após três meses de trabalho. Em 1977, começou a trabalhar em uma serraria em Igarapé-Miri, onde permaneceu por 10 anos, ganhando uma casa em madeira do proprietário da serraria, Antonio reside no local até hoje (no mesmo terreno foi construída uma casa em alvenaria).

Antonio em frente a sua casa em fotografia do ano de 2023. Foto: Railson Wallace.

Enquanto trabalhava na serraria, Antonio construiu um carrinho de raspadinha, passando a trabalhar vendendo o refrescos sempre aos fins de semana, quando tinha folga do trabalho. Em 1988, com a falência da serraria, Antonio passou a trabalhar somente no Iate Flor de Sant'Ana, exercendo o mesmo trabalho até os dias atuais. O nome do seu famoso carrinho da raspadinha, é uma homenagem a padroeira de Igarapé-Miri, Sant'Ana, da qual Antonio é um fiel devoto. A raspadinha é uma bebida muito popular na cidade de Igarapé-Miri, feita da mistura de gelo raspado e sucos de frutas.

Antonio raspando gelo em fotografia do ano de 2023. Foto: Railson Wallace.

Hoje, Antonio mora com sua esposa e seu filho em uma casa localizada na Rua Rui Barbosa (África), no centro da cidade de Igarapé-Miri. Seu Antonio e o Iate Flor de Sant'Ana são figuras carimbadas das ruas da cidade de nossa cidade, sendo considerados verdadeiros patrimônios culturais do município.

História na íntegra

terça-feira, 9 de maio de 2023

MESTRE TUTÉ E A QUADRILHA JUNINA EXPLOSÃO DO AMOR

Mestre Tuté em fotografia do ano de 2023. Foto: Railson Wallace.

Antonio José Viana dos Santos, conhecido popularmente como Tuté, nasceu no município de Igarapé-Miri, no dia 10 de abril de 1977. É filho de Manoel Raimundo dos Santos e Maria do Rosário dos Santos.
Sua trajetória no universo das quadrilhas juninas teve início ainda na infância, influenciado diretamente por seu irmão, Crisante, que mantinha uma quadrilha junina no bairro da Matinha. Na década de 1990, o bairro vivia um intenso período de efervescência cultural, contando com diversas quadrilhas juninas, entre elas a Roceiros da Matinha (coordenada por Crisante), a Cheiro do Pará, a Tradição Matinhense e a Explosão Matinhense.
Aos 12 anos de idade, Tuté foi convidado a integrar a quadrilha Cheiro do Pará, dirigida por um professor conhecido popularmente como Foena. A partir dessa experiência, passou a se envolver cada vez mais com o universo junino, desenvolvendo profundo interesse pelas tradições, coreografias e dinâmicas das quadrilhas juninas.
Com apenas 17 anos, Tuté fundou sua primeira quadrilha junina, denominada Chuva de Cheiro, uma homenagem a uma quadrilha da cidade de Belém, coordenada por um amigo que esteve em Igarapé-Miri durante o período da tradicional Festividade de Sant’Ana.
No ano de 1995, as quadrilhas juninas já apresentavam um processo de modernização, incorporando elementos da dança tradicional da quadrilha com ritmos regionais e contemporâneos, como Xote, Carimbó, Siriá, entre outros. Nesse contexto, Tuté decidiu inscrever sua quadrilha no concurso municipal de quadrilhas juninas, realizado na Praça Sarges Barros, que à época contava com três categorias: mirim, infantojuvenil e adulta.
Após a derrota no concurso da categoria infantojuvenil, Tuté retornou ao bairro da Matinha com o grupo e decidiu reorganizar os brincantes, separando as crianças para formar uma nova quadrilha voltada exclusivamente para a categoria mirim, já que estas já estavam ensaiadas. No trajeto de volta, próximo ao Hospital Sant’Ana, surgiu a discussão sobre o nome da nova quadrilha. Entre diversas sugestões, foi escolhido o nome Explosão do Amor.

Raro registro da Quadrilha Junina Explosão
do Amor Mirim na década de 90.

No dia seguinte, já com o novo nome, a Quadrilha Explosão do Amor conquistou o título de Campeã do Concurso Municipal de Quadrilhas Juninas Mirim, marcando oficialmente o nascimento do grupo.
Nos anos seguintes, a Explosão do Amor cresceu significativamente, tornando-se uma das quadrilhas mais expressivas do município, acumulando títulos municipais e intermunicipais. O envolvimento da comunidade do bairro da Matinha fortaleceu ainda mais o grupo, ampliando sua estrutura e número de participantes.
Diante da grande demanda de brincantes, Tuté criou três quadrilhas: Explosão Curumim, Explosão do Amor Mirim e Explosão do Amor Adulto. Durante cerca de quatro anos, desenvolveu simultaneamente as três quadrilhas. Com o passar do tempo, apenas as categorias mirim e adulta permaneceram em atividade, sendo a Explosão Curumim descontinuada.
Durante muitos anos, a Quadrilha Junina Explosão do Amor realizou apresentações em festivais, festas juninas escolares, festejos religiosos na zona urbana e rural, além de eventos realizados fora do município de Igarapé-Miri, em cidades vizinhas. Com o passar do tempo, o grupo foi crescendo e ganhando grandes proporções. À medida que os brincantes das categorias Curumim e Mirim amadureciam, a quadrilha adulta passou a se fortalecer cada vez mais, consolidando-se como uma das principais do município.

Quadrilha Explosão do Amor na década de 90.

Nos anos de 2001 e 2002, a Explosão do Amor conquistou o título de Campeã do Concurso Intermunicipal de Quadrilhas Juninas Modernas no Município de Acará, marco que impulsionou sua participação em concursos e festivais em outras localidades da região, como Moju, Abaetetuba, Barcarena, Vila do Conde e Mocajuba, ampliando sua trajetória para além dos limites municipais.
Entretanto, a partir do crescimento da violência urbana em Igarapé-Miri, especialmente com o surgimento de conflitos entre gangues de bairros rivais, a quadrilha passou a enfrentar sérias dificuldades. Entre os anos de 2006 e 2009, tornou-se cada vez mais arriscado sair do bairro da Matinha para realizar apresentações, participar de concursos e festivais. Em muitos casos, os brincantes só podiam se deslocar com escolta policial, composta por duas viaturas, uma à frente e outra atrás, como forma de garantir a segurança do grupo e evitar ataques motivados por rivalidades entre bairros.
Esse cenário gerou um impacto significativo na continuidade do projeto, uma vez que muitas famílias, temendo pela segurança de seus filhos, passaram a impedir a participação dos brincantes. Como consequência, a Explosão do Amor chegou a permanecer dois anos afastada da quadra junina, interrompendo temporariamente suas atividades.
Com o fim dos conflitos entre bairros, a quadrilha iniciou um processo gradual de retomada. No entanto, esse período foi marcado por perdas irreparáveis, incluindo brincantes e integrantes importantes que foram vítimas da violência urbana durante os anos de conflito.

Mestre Tuté em apresentação de quadrilha junina
no Arraial do Ginásio.

Apesar de todas as adversidades enfrentadas ao longo de sua história, Tuté segue mantendo vivo o projeto da Quadrilha Explosão do Amor, que há mais três décadas desenvolve um relevante trabalho cultural e social no bairro da Matinha, em Igarapé-Miri. Atualmente, o grupo atua exclusivamente com a quadrilha mirim, atendendo crianças e adolescentes, reafirmando seu compromisso com a formação cultural, a inclusão social e a preservação das tradições juninas.
Além de sua atuação à frente da Quadrilha Explosão do Amor, o Mestre Tuté também se envolveu, e continua atuando, em diversos movimentos culturais do município, como o Encontro das Cobras Grandes do Jatuíra e da Ponta Negra, blocos carnavalescos e iniciativas ligadas à dança. Paralelamente, desenvolve e apoia projetos esportivos, ampliando sua contribuição social e cultural para o seu bairro.

Mestre Tuté marcando a Quadrilha Explosão do Amor.

Atualmente, a Quadrilha Junina Explosão do Amor é a recordista de títulos do município de Igarapé-Miri, acumulando 18 títulos municipais. Além disso, o grupo possui dois títulos Intermunicipais e dois títulos do Campeonato Estadual de Quadrilhas, realizados na capital, bem como diversas outras premiações conquistadas ao longo de sua trajetória.

sábado, 18 de março de 2023

AMANDA RODRIGUES E O CORDÃO DE BICHO GATO BRANCO

Amanda Rodrgiues em foto após a apresentação do Cordão do Gato Branco.

Amanda Jennhyfer Rodrigues dos Santos nasceu no dia 27 de abril de 1998, no Hospital e Maternidade Sant’Ana, na cidade de Igarapé-Miri (PA). Viveu sua infância no bairro da Matinha, onde cresceu e reside até os dias atuais.

Em 2018, iniciou sua trajetória acadêmica no curso de Pedagogia pela Universidade do Estado do Pará (UEPA), concluindo a graduação em 2022. Atualmente, é graduanda do curso de Ciências Biológicas pela Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA).

Amante de gatos e cachorros, desde o ano de 2021, atua como voluntária na ONG Paraíso Animal, onde trabalha no resgate de animais de rua em Igarapé-Miri. Ao lado de parceiros, ela dedica-se ao acolhimento e cuidado desses animais, garantindo-lhes tratamento e a chance de uma adoção responsável. Seu trabalho voluntário é fundamental para salvar vidas e oferecer um novo destino a cães e gatos abandonados na região.

Apaixonada pela cultura junina e pelas tradições do São João em Igarapé-Miri, em 2023 identificou a necessidade de fortalecer e valorizar as manifestações culturais regionais. Diante disso, decidiu assumir a iniciativa de retomar a tradição do Cordão de Bicho Gato Branco. Por ser tutora de três gatos, sendo duas gatinhas brancas, Amanda se identificou de imediato com o nome do cordão, que conheceu por meio de pesquisas realizadas no projeto Cordões de Memórias, grupo dedicado ao estudo das histórias e vivências dos antigos brincantes dos Cordões de Pássaros, Bichos e Bois do município.

No ano de 2022, Amanda procurou a senhora Joventina Ferreira, filha do fundador do Cordão do Gato Branco, realizou entrevistas e, a partir desses registros, promoveu a retomada de uma tradição que permanecia adormecida há décadas, reativando o histórico cordão de bicho.

A história do Cordão de Bicho Gato Branco teve início no ano de 1951, no rio Tapiaí, região do Alto Anapu, com Angelino Ferreira da Silva, popularmente conhecido como Mosquito. Nascido em Belém, no dia 27 de setembro de 1910, Angelino foi um talentoso músico, instrumentista e compositor. Viveu parte de sua vida na capital paraense, onde teve contato com diversas manifestações culturais, como cordões de pássaros e bichos, bois-bumbás e pastorinhas.

Foto de Angelino Ferreira da Silva, fundador
do Cordão de Bicho Gato Branco.

Angelino perdeu a mãe, Joventina, ainda no parto. Foi criado por seu pai, Olavo, que trabalhava em embarcações e viajava com frequência ao Rio de Janeiro. Durante essas ausências, Angelino ficava aos cuidados de parentes e de sua madrinha. Aos 12 anos, com a morte do pai, passou a viver em definitivo com a madrinha e os familiares.

Já com 19 anos, ainda em Belém, Angelino conheceu Vadico, um amigo que o convidou para assistir a um jogo de futebol no rio Anapu, no interior do município de Igarapé-Miri. Foi ali que Angelino conheceu a hospitalidade dos moradores locais e desenvolveu um forte vínculo afetivo com a região.

Fixou-se no rio Tapiaí, no Alto Anapu, onde conheceu e se casou com Zumira de Lima Ferreira, com quem teve 10 filhos. Por conta de uma promessa feita pelo nascimento da primeira filha, Angelino e Zumira começaram a festejar Santa Terezinha, construindo um barracão em sua homenagem, onde a santa era venerada. A festividade cresceu e passou a atrair devotos de várias partes de Igarapé-Miri e de municípios vizinhos.

Ilustração do Cordão de Bicho Gato Branco na década de 50. 

Aproveitando sua vivência nas manifestações culturais de Belém, Angelino criou, no ano de 1951, o Cordão do Gato, no rio Tapiaí. O grupo começou com cerca de 20 personagens e logo se tornou presença constante nas festas católicas da zona rural. Em julho, durante a Festa de Sant’Ana, o cordão saía de barco do rio Anapu rumo à cidade de Igarapé-Miri, desfilando pelas ruas em cortejo musical. O grupo era acompanhado pela orquestra “Lyra Platina”, composta por músicos de sopro e percussão. Angelino integrou essa orquestra desde 1941, e posteriormente também tocou banjo na Orquestra Tupy.

Na cidade, o Cordão do Gato realizava apresentações em cortejo, entrando em algumas casas para encenações. O personagem do gato era representado por uma menina vestida com um short branco, que carregava sobre si uma alegoria de um gato branco, semelhante à figura do boi-bumbá.

Angelino faleceu em agosto de 1975, sendo sepultado no Cemitério da Vila Menino Deus do Anapu. Seu legado permanece vivo como expressão da cultura popular amazônica e miriense.

Atualmente, o Cordão de Bicho Gato Branco é coordenado por Amanda Rodrigues, que desenvolve o projeto teatral com crianças e adolescentes residentes em Igarapé-Miri, alunos da Rede Pública de Ensino. O cordão se apresenta, tradicionalmente, durante o período das festas juninas, contribuindo para enriquecer ainda mais a programação cultural do mês de junho no município. O Cordão de Bicho Gato Branco é um dos poucos cordões de bichos e pássaros juninos que permanecem ativos e resistentes até os dias atuais em Igarapé-Miri.

O Cordão de Bicho Gato Branco também atua como uma importante ferramenta de conscientização sobre o respeito aos animais. Seu enredo foi adaptado para abordar temas educativos, destacando a importância do cuidado, da proteção e do respeito aos animais, especialmente aos gatos.

sábado, 11 de março de 2023

Tia Mimim Puxadeira

Tia Mimim em fotografia do ano de 2023. Foto: Railson Wallace.

A puxadeira Calcilda Pereira de Sousa, conhecida popularmente como Tia Mimim, nasceu em 9 de abril do ano de 1944, na localidade Camotim, interior do município de Moju.
A profissão de puxadeira é muito tradicional na região do município de Igarapé-Miri e geralmente é desempenhada por mulheres que exercem a missão de cura utilizando métodos alternativos, sendo muito comum que pessoas com problemas de saúde relacionados a deslocamentos nos braços, pernas, costas e gravidez, procurem as puxadeiras, que geralmente são mulheres idosas. 
Com a construção e a expansão de hospitais nas cidades do interior da Amazônia, esta atividade foi ficando cada vez mais rara, mas ainda persiste nas poucas puxadeiras que desempenham esta função nos dias atuais.

Tia Mimim desempenhando a atividade de puxadeira.
Foto: Railson Wallace.

Tia Mimim mora em Igarapé-Miri desde os seus 5 anos e iniciou as suas atividades como puxadeira aos 13, quando ainda desenvolvia a função de peconheira (pessoa que sobe na árvore de açaí para colher os frutos). Após cair de uma árvore e deslocar um osso, Tia Mimim teria que ser atendida por um puxador chamado Benedito, que era o único da região. Como morria de medo dos métodos usados por ele, Tia Mimim decidiu que resolveria a luxação sozinha, "puxando" a si mesma. 
Com o conhecimento que adquiriu durante anos de práticas para corrigir os deslocamentos em seu próprio corpo, Tia Mimim começou a atender outras pessoas nos municípios de Igarapé-Miri, Moju, Belém, Barcarena e Cametá, tornando-se conhecida na região por corrigir luxações em humanos e até mesmo em animais. Tia Mimim também atendia mulheres gestantes, corrigindo a posição de fetos que estão em posicionamento que possam ser prejudiciais ao parto.

Casa de Tia Mimim. Foto: Marlon Rodrigues.

Tia Mimim já morou em Belém, no Canal de Igarapé-Miri e no Bairro das 5 Bocas, mas hoje reside com seus filhos e netos nas margens da Rodovia PA-151, Bairro Boa Esperança e ainda atende pessoas em sua casa. 
A cidade de Igarapé-Miri hoje possui dois hospitais e mesmo assim, Tia Mimim ainda resiste em sua profissão, sendo muito procurada para resolver luxações e problemas na gravidez, sendo a puxadeira mais conhecida de Igarapé-Miri, atendendo até mesmo, pessoas de outros municípios que procuram.

História na íntegra

quarta-feira, 16 de novembro de 2022

Mestre Gelffson Lobo e o Boi Pai do Campo

Gelffson Lobo em fotografia do ano de 2023. Foto: Francisco Costa.

Gelffson Brandão Lobo, conhecido popularmente por Professor Gel, nasceu na cidade de Igarapé-Miri, em 05 de dezembro de 1957. Filho de Felicidade Brandão Lobo (Dona Mocinha) e Raimundo Ferreira Lobo Filho (Tio Neco), Gelffson é professor de Educação Física, formado pela Universidade do Estado do Pará (UEPA). É músico, compositor, cordelista e ativista cultural, atuando nos grupos Rosalina, a Cobra do Jatuíra, e Boi Pai do Campo. Fundou o projeto Nostalgia Miriense e é colaborador dos projetos Esporte Miriense e Anima Lendas.
Desde a sua infância na década de 60, Gelffson sempre teve contato com as manifestações culturais de Igarapé-Miri, sendo os seus pais, os organizadores de grupos folclóricos como o Cordão de Pássaro Junino do Guará, Escola de Samba Queremos Brincar e o Boi Bumbá Pai do Campo, todos esses grupos ensaiavam na mesma casa onde Gelffson morava. 
Em Igarapé-Miri já existiram vários grupos de bois bumbás como o Boi Malhadinho, Estrela Dalva, Pingo de Ouro, Sangue Azul e o Boi Pai do Campo, que junto ao Boi de Banda, hoje são os únicos ainda em atividade.
O Boi Pai do Campo foi fundado na década de 1950, por um grupo formado por Dona Baizé, Dona Mocinha, Professora Eurídice Marques, Secundino e outros colaboradores. Posteriormente o boi passou a ser comandado pelo senhor Neco Lobo, pai de Gelffson. O grupo foi inscrito na Fundação Cultural do Pará e se apresentava na casa de autoridades do município como a casa do juiz, casa do prefeito e na prefeitura, podendo também se apresentar em residências particulares, onde solicitavam sua exibição. 

Boi Pai do Campo em foto do ano de 2017. Foto: Railson Wallace.

O primeiro boi foi confeccionado em Abaetetuba e o enredo contava a história de Nego Chico, um escravo que, para saciar o desejo de sua esposa grávida por uma língua de boi, mata o gado de estimação do senhor da fazenda. Logo no início do espetáculo, o personagem Nego Chico entregava um envelope ao dono da casa. Ao término, o envelope era recolhido com uma quantia em dinheiro ofertada pelo morador que solicitou a apresentação, o valor era investido no grupo.

Gelffson Lobo em cortejo do Boi Pai do Campo, 2017.
Foto: Railson Wallace.

Em 11 de junho de 2017, após 40 anos sem atividades, com incentivos e pesquisa de Gelffson Lobo, o Boi Pai do Campo volta a se apresentar em um cortejo realizado pela Escola de Artes João Valente do Couto. O arrastão contou com a presença de autoridades e da população que acompanharam o passeio do boi pelas ruas do centro de Igarapé-Miri. O arrastão começou na Escola de Artes e terminou no Centro Cultural Aurino Quirino Gonçalves (Pinduca), onde ocorria o 38º Festival do Camarão. 

Cortejo do Boi Pai do Campo, junho de 2017.
Foto: Railson Wallace.

Hoje, o Boi Pai do Campo é organizado pela Escola Municipal de Artes João Valente do Couto e tem o Professor Gelffson Lobo como um dos seus coordenadores e colaboradores. O grupo utiliza várias músicas originais do Boi Pai do Campo e se apresenta em vários eventos em Igarapé-Miri e outros municípios. 
Em entrevista, o Professor Gel destacou que a primeira atriz a representar a Catirina, ainda está viva, tem 102 anos e reside em igarapé-Miri. 

                                             História na íntegra



sexta-feira, 11 de novembro de 2022

Mestra Maria Antonia, o Boi de Banda e o Grupo Carimbolando

Maria Antonia em foto do ano de 2023. Foto: Marlon Rodrigues.

A professora, compositora e musicista Maria Antonia de Oliveira Nonato, nasceu no dia 14 de junho de 1958, no rio Santo Antonio, interior do município de Igarapé-Miri. Filha de Levino Fonseca Nonato e Benedita Ferreira de Oliveira, cresceu na cidade de Igarapé-Miri, onde morou em vários bairros, como a África e a Marambaia, sendo atualmente moradora da Rua Rui Barbosa, no Bairro da Matinha. 
Maria Antonia começou os seus estudos no Instituto Nossa Senhora Sant'Ana, estudando também na Escola Aristóteles Emiliano de Castro (Ginásio) e na Escola Enedina Sampaio Melo, todas em Igarapé-Miri. Hoje, é formada em Pedagogia pela Universidade Estadual Vale do Acaraú e em Educação Física pela Universidade do Estado do Pará (UEPA).
Desde a sua infância, Maria Antonia sempre foi apaixonada pelas manifestações culturais de Igarapé-Miri, participando das quadrilhas Alegria Junina, Roceiros da Matinha, Curumim na Roça, Cheiro de Patchouli e Roceiros da Boa Esperança. Nas bandas marciais de Igarapé-Miri, Maria Antonia atuou como regente nas bandas da extinta Escola Nossa Senhora Sant'Ana (Escola da Maria Celes), Raimundo Emiliano Pantoja, Aristóteles Emiliano de Castro (Ginásio) e do Instituto Sant'Ana (INSA), além de participações no Boi Bumbá Pingo de Ouro, onde interpretou a personagem Catirina. Participou também de grupos teatrais organizados pela professora Eurídice Marques e Rui Pureza, além de outros grupos, onde colaborou com mestres da cultura miriense, como Dona Onete, Contra-Maré, Professora Mocinha e outros. 
Na Banda de Sant'Ana, Maria Antonia ocupou por anos, o cargo presidente do grupo musical, sendo também, uma das componentes que inicialmente tocava um bombardino, passando para o trompete, mas por motivos de saúde, atua hoje, na percussão do grupo. Participou ativamente, da criação da Escola de Música da Banda de Sant'Ana Professor Amintas Pinheiro, inaugurada em julho de 2015.

Maria Antonia com a Banda Musical de Sant'Ana. 
Foto: Banda de Sant'Ana.

Em 14 de junho de 2017, Maria Antonia criou o Grupo Folclórico Carimbolando, que é uma banda musical do ritmo regional carimbó, formado hoje por 20 integrantes, que tocam músicas autorais escritas por Maria Antonia. As canções do Carimbolando, retratam os costumes, tradições e o cotidiano do povo miriense, difundindo através da música e da dança, as belezas do município de Igarapé-Miri.

Grupo Carimbolando em uma apresentação em Belém.
Foto: Paróquia São Judas Tadeu, Belém.

Em 2022, em parceria com um grupo formado por familiares e amigos, Maria Antonia criou o Boi de Banda, um boi bumbá que realiza cortejos pelas ruas da cidade de Igarapé-Miri, em momentos festivos como os festejos juninos, Festival do Camarão, Festa de Sant'Ana e outros.
O Boi de Banda mistura entre os seus brincantes, crianças, adolescentes, adultos e idosos que juntos se divertem com os coloridos cortejos pelas ruas da cidade. 

Boi de Banda em um dos cortejos pelas ruas de Igarapé-Miri. Foto: Francisco Costa.

Hoje, Maria Antonia é funcionária da Escola Municipal de Artes João Valente do Couto, onde atua como professora de Educação Física, além de participar dos grupos culturais existentes na instituição como o grupo teatral e do Boi Bumbá Pai do Campo, onde interpreta a personagem Catirina. 
Maria Antonia também trabalha como animadora infantil e coordena os grupos Boi de Banda e Carimbolando.

                                              Assista na íntegra


quarta-feira, 9 de novembro de 2022

Anna Tourão: a primeira médica da Amazônia

Fotografia de Anna Tourão. Fonte: Acervo Mariangela Lopes Bitar.

Embora a instituição do ensino da medicina no Brasil tenha acompanhado a chegada da família real portuguesa, em 1808, durante muito tempo não foi permitido que as mulheres frequentassem os cursos oferecidos no Brasil, os quais, por quase 100 anos a partir da sua instalação, se restringiram apenas às Faculdades da Bahia e do Rio de Janeiro.
As mulheres que desejavam seguir a profissão médica tinham que estudar na Europa ou nos Estados Unidos, que, embora com restrições, eram países que contavam, desde os meados dos anos 1800, com cursos médicos específicos para mulheres. Mesmo impedidas de estudar no Brasil, as mulheres poderiam revalidar seus diplomas caso tivessem estudado no exterior. Ainda que pareça um contrassenso, era assim que as coisas funcionavam naqueles tempos. 
Anna Tourão Machado, nasceu em Igarapé-Miri, no engenho da família, em 28 de abril de 1862, filha de Antônio Lopes Machado e Andreza Tourão, Anna era a mais velha de três irmãos: Maria Tourão Machado e Antônio Lopes Machado Filho, para o qual o pai desejava o estudo da medicina. Ocorre que o jovem Antônio não era chegado aos estudos, não conseguindo realizar o projeto de seu pai. Mas, para que o desejo de seu pai, pudesse ser realizado, Anna decidiu que ela seria a médica. E assim, em 1882, ela partiu para Nova Iorque, para a mesma faculdade em que outras brasileiras já haviam estudado, acompanhada de seu pai e de sua irmã, Maria, que lá permaneceu, estudando piano no conservatório.
Após cinco anos de estudo, Anna formou-se em 19 de abril de 1887, em uma turma composta por dez mulheres. Ao retornar ao Brasil, Anna teria que revalidar seu diploma na Bahia ou no Rio de Janeiro, mas antes passaria em sua terra natal, para as comemorações ao lado da família. Foi recebida com uma grande festa organizada por seu pai, mas que seria interrompida para que ela fosse atender uma mulher negra escravizada, em trabalho de parto.
Após visitar sua terra natal, Anna partiu para Salvador, a fim de ter seu diploma revalidado pela Faculdade de Medicina da Bahia. A revalidação do diploma implicaria em mais dois anos de estudos para Anna Tourão Machado. A estada na Bahia permitiu que a jovem médica conhecesse Emilio Ambrósio Marinho Falcão, jovem estudante pernambucano, com quem viria a casar. Entretanto, a morte de seu pai interrompeu a temporada de estudos, fazendo com que Anna voltasse para Igarapé-Miri, para cuidar das coisas da família. Ao retomar os estudos, na Bahia, três anos depois, Anna estava casada com Emilio Falcão, já formado cirurgião dentista.
Em 1891, Anna passaria uns meses em Quixadá, no Ceará, acompanhando o marido, que buscara aquela cidade para tratamento de saúde. Ali também deixaria sua marca, relembrada com carinho e reconhecimento pelo vigário da cidade, por conta da dedicação para com os habitantes do local.
Com o término dos estudos, a defesa da tese e a consequente revalidação do diploma, Anna está pronta para exercer sua profissão no Pará. Ao retornar para Belém, em 1892, a região vivia os áureos tempos da borracha, mas vivia também dias atribulados em sua política. Anna abriu um consultório na Rua 13 de maio, juntamente com seu marido, que ali também montou seu consultório de cirurgia e protese dentaria.
Tendo se envolvido em política, Emilio Falcão acabou sofrendo ameaças. Descontente com os rumos da política, arrendou o seringal "Aquidabam", no Acre, uma vasta extensão às margens do rio Acre, e partiu para lá em 1908, deixando a família em Belém.

Seringal Aquibadam. Fonte: Falcão e Álbum do Rio Acre. 1906 -1907.

Anna também se mudou para o Acre e agora, em plena floresta, tudo dependeria de sua habilidade no combate às doenças, como a malária, endêmica na região, e o surto de gripe espanhola, que chegaria até aquela localidade, provavelmente pelos imigrantes nordestinos que iam trabalhar nos seringais. Ali Anna seria a médica, a enfermeira, a parteira, tudo, fabricando ainda os seus remédios com matérias extraídas da natureza.
Em 1921, com todas as filhas casadas, Anna e o marido se mudaram para Xapuri, a cidade mais próxima e, ainda assim, distante do seringal seis horas de barco, e onde a médica continuaria a exercer sua profissão. 

Anna Tourão, já idosa, em visita a sua filha, por volta
de 1930. Fonte: Acervo Mariangela Lopes Bitar.

Anna Tourão faleceu em 1940, aos 77 anos de idade, em São Paulo. A Amazônia esperaria até 31 de dezembro de 1928 para ter sua primeira médica formada por uma escola da região: seria Olga Paes de Andrade, que colaria grau naquela data pela então Faculdade de Medicina e Cirurgia do Pará.

Extraído de:
http://scielo.iec.gov.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2176-62232012000100002

segunda-feira, 17 de outubro de 2022

Eurídice Marques: a Pérola Negra do Tocantins

Eurídice Marques em pronunciamento na Praça Sarges Barros. Foto: autor desconhecido.

Eurídice Soares Marques de Sousa, conhecida popularmente como Tia Eurídice, nasceu no Município de Igarapé-Miri, no dia 10 de Dezembro do ano de 1917. Filha de Manoel Luiz Marques e Lídia Soares Marques. Eurídice foi Professora, folclorista, musicista, escritora, compositora, e grande incentivadora dos movimentos culturais no município, começando seu trabalho com grupos teatrais que saíam nas casas para apresentar-se em períodos específicos do ano. Esses grupos cantavam músicas compostas por ela e utilizavam textos que também eram da autoria de Eurídice.
Seu trabalho cultural/musical inicia-se com a criação da festividade de Santo Antônio dos Inocentes, venerado em sua residência no mês de junho. Coordenou por muitos anos, a festividade de Santa Maria da Boa Esperança, nas quais rezava e cantava as novenas, acompanhada de um grupo de sopros (pistom, saxofone e trombone) e com sua batuta na mesa, amplificada por um microfone, regia os dobrados e cânticos religiosos da época.

Eurídice Marques e amigos no Barracão de Santa Maria
da Boa Esperança. Fonte: Acervo de Suely Miranda.

Professora Eurídice Marques, foi uma grande incentivadora dos movimentos culturais mirienses, seguindo os passos na tradição dos cordões de pássaros e cordões de bichos juninos, que no caso de Tia Eurídice, era cordão do Camarão. Segundo a própria Eurídice em entrevista cedida ao Jornal Diário do Pará, em junho de 1988, o folguedo coordenado por ela teria iniciado no ano 1928, quando aos 11 anos, ela brincou pela primeira vez no Cordão do Camarão, sendo a tradição retomada na década de 80. 

Cordão do Camarão, em apresentação no Teatro Margarida Schivasappa, em Belém.
 Foto do ano de 1992.

Durante o mês de abril, dirigia a peça teatral “A Paixão de Cristo”, onde findava o ano com As pastorinhas “Filhas de Conceição”. Os pastoris e o Cordão de Camarão participaram por muitos anos do projeto PREAMAR (Projeto criado no ano de 1986, pelo então Secretario de Cultura do estado João de Jesus Paes Loureiro e tinha como objetivo apoiar, valorizar e abrir espaços para exibição dos espetáculos de cultura popular). 
Já idosa, organizou um grupo de dança folclórica da 3ª idade, que era muito requisitado para apresentarem-se nos mais diversos eventos da cidade. Foi também, uma das fundadoras e coordenadoras do Círculo Operário São José, que era uma forma de dar amparo aos operários, trabalhadores em geral, que era uma organização parecida com um sindicato, foi uma das fundadoras do Clube de Mães, que atendia mães carentes, com a ajuda da Legião Brasileira de Assistência (LBA). Coordenou o Movimento Brasileiro de Alfabetização (MOBRAL) e juntamente com o MOBRAL, criou o Festival do Camarão de Igarapé-Miri, uma tradição que comemora a safra do camarão regional e persiste até hoje. 

Eurídice em uma apresentação na Praça Sarges
Barros. Foto: Autor desconhecido.

Tia Eurídice ficou conhecida como a "Pérola Negra do Tocantins” apelido carinhoso dado por João de Jesus Paes Loureiro, quando este, foi secretário de Estado de Educação do Pará.
Eurídice Marques faleceu no início do ano de 2007, deixando um legado na educação e cultura miriense.

Fontes: 
http://culturamiriense.blogspot.com/2015/06/euridice-marques-perola-negra-do.html
Jornal Miriense: edição 05 de fevereiro de 2007.
Jornal Diário do Pará: edição de 22 de junho de 1988.